
Tenho muita coisa pra escrever mas os rápidos rabiscos que faço não são dignos de serem palavras, muito menos o conjunto, poesia. Não, as palavras são atores e atrizes de uma peça, apresentada num Teatro de Papel. Primeiro marcam-se os testes, longos e exaustivos, sob os olhares críticos da rigorosa banca de seleção. O elenco escolhido deve representar nos mínimos detalhes o que o autor sonhou! Então começa a produção... há que se preocupar com o figurino de cada palavra, se serão escritas a tinta ou carvão, datilografadas, impressas, letra cursiva, de forma ou mesmo engarranchadas. O teatro tem que ser preparado, cenário, iluminação, bilheteria! Uma folha de caderno? O verso de um recibo amassado esquecido no fundo da carteira? Um guardanapo de bar? Novo ou usado? Ensaiar, ensaiar, ensaiar, rever cada marcação, mudar palavras de lugar, você pra cá, você pra lá, vocês todas desse parágrafo sobem e ficam no começo, vocês descem e só aparecem no final pra chocar o respeitável público. E sempre há algum ator que não rende o esperado ou não se adapta ao papel e tem que ser demitido. "Olha, infelizmente não há mais lugar pra você nessa peça." E lá se vai a triste palavra, andando cabisbaixa pela margem do papel, ombros caídos, balançando vagarosamente suas letrinhas ao longo do corpo enquanto a borracha lhe mostra a porta de saída. Dor, decepção, mas o show tem que continuar e os ensaios também, frenéticos! Cada ato da peça vai tomando forma, cada ator vai se encaixando com perfeição no seu papel e define-se o começo, meio e fim da peça, quase nunca nessa ordem. Finalmente, o dia da estréia! A atmosfera tensa, pode-se pegar o ar de tão denso, as palavras todas nos seus lugares, o lápis confere detalhes de última hora de um figurino meio torto, o papel todo iluminado, a sineta toca três vezes e... tá-dááá! Abrem-se as cortinas! Os olhos dos espectadores vão devorando cada palavra que as palavras dizem, cada detalhe da escrita, da grafia, do estilo, as licenças poéticas, a trilha sonora, os efeitos especiais! Os atos vão se sucedendo, um após o outro, a idéia do autor vai se misturando com as interpretações de cada palavra e então o grand finale! A casa cheia toda se levanta, aplausos, assovios, bravos! As palavras todas voltam ao palco, fazem uma demorada mesura e pouco a pouco os espectadores vão deixando o teatro, um após o outro. Os atores e atrizes vão para os seus camarins tirar a maquiagem e o figurino e voltam a ser apenas palavras com empregos comuns. Uma trabalha num jornal, outra numa empresa de outdoors, outra num manual de videocassete e parece que tem uma desempregada, uma tal de Sentimento. Está sem emprego há um tempão, parece que ficou obsoleta e agora só arruma emprego em peças de teatro. Mas depois que o último espectador acaba de sair, no teatro agora escuro e vazio, o lápis, uns 4 centímetros menor e com os olhos vermelhos de tanto chorar de emoção, sentado numa poltrona da primeira fileira, todo suado e com os olhos perdidos no vazio do palco, ainda vê ali cada palavra, cada detalhe, cada sensação. Revê na memória todos os ensaios, lembra de todo o trabalho, esforço e dedicação, olha para a própria ponta gasta, dá um profundo suspiro satisfeito e puxa um apontador do bolso do colete.
Nossa, como eu me frustrava vendo todo o sofrimento que envolvia botar no papel um texto totalmente pronto na minha cabeça! Pronto, porém sem nexo pra qualquer habitante extra-craniano... Rs. Mas depois que a "peça" fica pronta, mesmo que não tenha ninguém pra aplaudir, parece que o dia fica mais leve, dá até vontade de agradecer a cada ator pela humilde participação...
ResponderExcluirAgora faltam só nove!! Beijo
ultimamente tenho perdido as aulas de direção teatral.........ou talvez eu esteja precisando de um apontador novo...
ResponderExcluirmas "meu olhar"... crítico continua o mesmo...