quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Vipassana 2 - Nu

Depois de uma viagem sem maiores percalços, chegamos. O lugar é bem simples, parei o carro num baixio perto da entrada do local, fora da vista da área do retiro de maneira que não o vi até o dia de voltar. Pronto, a primeira perda material. Cheguei, me apresentei, preenchi um formulário frente e verso perguntando informações básicas e outras como “faça um pequeno resumo da sua vida”. Fiquei com inveja do que Fernanda e Márcia estariam escrevendo mas fiz meu melhor, deixei a chave do carro, carteira, demais documentos e celular num saco plástico lacrado com a organização e assim completou-se a minha despersonalização. Quem sou eu sem minhas posses materiais? Estava praticamente nu, só conservei o relógio de pulso após garantir à organização que ele não apitava nem fazia barulhinhos. Fui descendo o caminho de terra e grama – todos os caminhos dentro do retiro são meio que trilhas no meio da natureza - até o dormitório e notei a imensa quantidade de placas de "Limite" espalhadas pelo local. Nos próximos dias eu descobriria que é bem possível ultrapassar todos limites mesmo estando dentro dos limites. Cheguei ao quarto, conheci meus dois companheiros de moradia pelos próximos 10 dias e aí tive um mau presságio: meu relógio, o último dos links com a vida tal qual eu conhecia, parou. O ponteiro dos segundos ainda estava agonizante em espamos episódicos mas definitivamente ele estava evoluindo para o êxito letal, um triste caso de morte súbita. Pensei: fudeu. O tempo parou e eu estou preso aqui no meio do mato, cercado de pessoas totalmente diferentes de mim, fazendo uma coisa que eu nunca fiz na vida, para toda a eternidade dos próximos 10 dias. Tava me sentindo o personagem daquele filme Feitiço do Tempo que sempre passa na Sessão da Tarde, onde o cara fica preso num lugar onde todo dia é o mesmo dia. Troquei rápidas palavras de apresentação com meus colegas, um jornalista e um professor de educação física, e já subimos para a reunião inicial no refeitório, a última ocasião em que homens e mulheres sentaram todos juntos.


As instruções básicas foram dadas e começou o Nobre Silêncio. Assim mesmo, com letras maiúsculas. Nenhuma palavra deveria ser trocada entre os participantes. Para imprevistos absolutamente inadiáveis tínhamos o Gregory, o gerente masculino, com quem deveríamos falar apenas o imprescindível. E assim tudo começou. O programa básico era o seguinte:


04:00-- ---------------- Chamada

04:30-06:30 ----------- Meditação na sala ou no quarto

06:30-08:00 ----------- Desjejum e descanso

08:00-09:00 ----------- Meditação em grupo na sala

09:00-11:00 ----------- Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor

11:00-12:00 ----------- Almoço

12:00-13:00 ----------- Descanso e perguntas individuais com o professor

13:00-14:30 ----------- Meditação na sala ou no quarto

14:30-15:30 ----------- Meditação em grupo na sala

15:30-17:00 ----------- Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor

17:00-18:00 ----------- Lanche e descanso

18:00-19:00 ----------- Meditação em grupo na sala

19:00-20:15 ----------- Palestra do professor na sala

20:15-21:00 ----------- Meditação em grupo na sala

21:00-21:30 ----------- Perguntas abertas na sala

21:30 ------------------ Repouso. Apagam-se as luzes


Logo após as instruções iniciais já descemos pra sala de meditação pra primeira sessão do curso. A sala é um galpão de uns 10x20 metros, com um madeiramento lindo sustentando o telhado, paredes de tijolinhos, chão de tacos limpos com esmero cirúrgico, uma divisória entre os lados dos homens e das mulheres que obviamente usavam entradas separadas, bem arejada, paredes em todas as janelas, pouquíssima luz artificial, uns 25 tapetinhos de 0,60x1,20m de cada lado da sala, um pra cada aluno (ado, ado, ado, cada um no seu quadrado), e umas 80 almofadas de toda sorte, tamanho, fofura e cor, espalhadas no fundo da sala. Pô, mas eles não mandaram trazer almofadas? Pra que isso tudo? Que exagero, pensei. Nesse momento eu ainda não sabia como seriam poucas aquelas almofadas...

Ainda na noite do Dia Zero foi dada a primeira das orientações técnicas e filosóficas da meditação, que são sempre dadas em áudio pelo próprio S. N. Goenka, na sessão em grupo das 19h às 20h15. A técnica que aprendemos nessa sessão do Dia Zero foi o anapana, que é simplesmente observar a respiração, sem interferir, concentrando-se no ar que entra e no ar que sai. Minuto após minuto, hora após hora. O ar que entra, o ar que sai. Da maneira que entra, da maneira que sai. Sendo o mestre indiano, o inglês tb tem aquele indefectível sotaque que eu acho engraçadíssimo, o W com som de V, o R bem puxado, etc. No começo tive que me controlar pra não rir, no 2o dia já tinha que me controlar pra não ficar puto. Ô, mente reativa!

5 acabativas:

  1. Tô empolgada com sua aventura, muito corajoso vc, parabéns! Não vejo a hora de ler o próximo capítulo :)

    ResponderExcluir
  2. Acabei de ler esse seu dia zero.
    E vi o cronograma. Desjejum e descanso.
    Descanso de que, por misericórdia?! Só se for de ter acordado as 4 da matina.
    Mas tudo bem, ainda vou ler os outros dias. Talvez tenha uma boa explicação.
    : )
    LuFri

    ResponderExcluir
  3. Me inscrevi e fui aceito nesse curso.
    Apesar de ficar apenas sentado, trabalhar com a mente cansa demasiadamente.
    Tente sentar e ficar 20 minutos apenas observando sua respiração (e voltando a respiração toda vez que se distrair com seus pensamentos).
    Vai perceber que ficar por cerca de 10 horas assim, cansa bastante...rsrsrs

    ResponderExcluir
  4. Oi!
    Começo o curso de Vipassana no dia 24/03. Antes de ir resolvi me informar um pouco e terminei achando o teu diário. Antes de tudo, quero dizer que foi uma leitura muito divertida, muito mesmo. Mas também foi dolorosamente reveladora (ai, minhas costas!) do que devo encontrar pela frente. Uma sugestão que anotei para não esquecer de jeito nenhum: roubar aquelas 150 almofadas todas para mim logo no início; e encostar na parede imediatamente, sem pedir licença ao tal bedel.
    Como você, também vou ao curso por sugestão de amigos queridos, gosto de programas de índio (com algumas ressalvas em relação a banheiros) e, o mais importante, estou em fase de transição pessoal - o que significa que experiências assim, diferentes de tudo o que eu já fiz na vida, estão me atraindo como imã de geladeira.
    Também como você, não tenho um objetivo claro a ser atingido lá dentro. Não tenho a pretensão de sair de lá zen, como é o meu grande sonho de consumo, o dever de casa que elegi. Não, isso ainda demora - se é que acontecerá algum dia, pois venho é me tornando cada vez mais inquieta. De qualquer modo, tenho a esperança de, quem sabe, iniciar em Miguel Pereira um processo de... chamemos de auto-reformatação, de reinvenção pessoal. Quem sabe, não é?
    Te conto quando acabar, se eu sobreviver e você quiser me ouvir, naturalmente.
    É isso! Um beijo e boa noite!
    Rejane
    PS. A propósito: eu acho que você grafou "fudeu" errado. Pensa bem: é foda, não é fuda.

    ResponderExcluir
  5. Parabéns, Rejane! Conte sim, é sempre bom ouvir e trocar experiências. Mas temo que vc não sobreviva e sim volte outra pessoa ;-)
    O "fudeu" foi uma coisa meio onomatopéica, no Rio a gente não fala "fô-deu". Palavrões à parte, vc está certíssima.
    Valeu! Aproveite bem o retiro!

    ResponderExcluir