Dia Um, 4h da madrugada, toca o sino chamando para o início. Pelo menos não era o bip-bip do despertador, lembrava mais um gonzo daqueles de filme chinês trash de artes marciais, já tava me sentindo o próprio mestre shaolin. Iááááá!!! No caminho pro banheiro topei com três sapinhos engraçadinhos e um batráquio que parecia tb um sapo mas tinha o tamanho de um pequinês, do qual eu respeitosamente desviei. Algumas aranhas ameaçadoras nos cantos das paredes, mariposas, formigas de toda sorte, outros insetos variados, aquele cheiro de grama molhada, calça dobrada nas canelas, chinelo de dedo nos pés, meu lado Chico Bento aflorando e eu comecei a achar ótimo tudo aquilo. Lógico que nem tudo são flores. Difícil concentrar-se pra aquela gostosa e libertadora mijada matinal com um pernilongo de 12 cm dando rasantes ameaçadores sobre os Países Baixos. Quer saber? Eu tô achando é pouco. Além do mais, pra curar o sono da madrugada nada melhor que uma ducha gelada. No meio caminho da água entre o chuveiro e minha cabeça eu lembrei que ali era Miguel Pereira, água de serra, congelante, arrependi-me mas aí já era tarde demais. Banho rápido, escovada nos dentes, parti pra sala de meditação, animado, quem sabe no final do dia eu já esteja levitando ou conversando com os animais. E aí começou a dura realidade.
Tinha minhas 2 almofadinhas, peguei mais umas 3 e achei que já tava bom demais. Arrumei do jeito que melhor consegui e sentei com as pernas cruzadas normalmente na frente. Vamos com calma, lá pelo meio do curso eu já devo estar meditando naquela postura de lótus das estátuas de Buda ou quem sabe de ponta cabeça com o dedão do pé esquerdo cruzando pela frente da axila direita. Sentei e fiquei praticando anapana durante umas duas horas até não sentir mais nada abaixo do joelho esquerdo, uma queimação intensa em toda a perna direita, a bunda pegando fogo, a coluna lombar completamente destroçada, os ombros sem posição e a nuca com um torcicolo incipiente. Achei que pra primeira sessão já tava bom demais e resolvi lavar o rosto no banheiro do alojamento. Na parede do banheiro tinha um relógio, quando entrei tava marcando 4h40. Olhei de novo. Se eu levantei às 4h, tomei banho e escovei os dentes devem ter passado uns 20min. Quer dizer que essas duas horas meditando foram só uns 15 a 20 minutos? Nesse momento eu lembrei do meu recém-falecido relógio de pulso, olhei pras próximas horas e dias e tive pela primeira vez vontade de ir embora. Mas eu já estava ali, tinha me proposto a fazer o pacote completo, ia ficar morrendo de vergonha de dizer que tinha amarelado e ido embora. Vamos, rapaz, seja homem, volte pra sala. Ao longo das sessões de meditação desses 10 dias eu arrumei minhas 5 almofadinhas de 4.386 maneiras diferentes e tentei outras 3.981 variações de posições corporais, sempre sem sucesso. Era sentar e depois de uns 20 a 30 minutos não aguentava mais e tinha que trocar de posição. Lembrei das centenas de almofadinhas no fundo da sala e resolvi buscar mais umas mas já era tarde, haviam sido todas saqueadas pelos outros alunos, tão desconfortáveis quanto eu. Tinha gente com 8, 9, até 11 almofadas! Descobri que 3 companheiros haviam recuado seus tapetinhos até o fundo da sala pra ficar com as costas apoiadas na parede. Arrastei-me penosamente até o Gregory, fiz minha melhor cara de cachorro pidão, pedi pra ir pro fundo e ele concordou. Lembrei da época da escola, no fundo da sala de aula sempre fica a galera que não quer nada, os baderneiros, pessoal com déficit de atenção, os repetentes. Lembrei do Tropa de Elite: “tá com medinho, senhor zero-um”? Troquei feliz o que restava da minha dignidade pelo último espaço na parede e achei que meus problemas estavam resolvidos. Melhorou quase nada. Quase nada mesmo. Comecei a me desesperar. E assim passaram o 1o e o 2o dia, com muito sofrimento mas pelo menos muita concentração. O anapana realmente funcionava, a mente começava a ficar mais focada e afiada e eu pensei que ia sair do retiro paraplégico mas pelo menos muito concentrado. Bola pra frente.
Na noite do Dia 2, após 48 h de “o ar que entra, o ar que sai, assim como entra, assim como sai”, fomos instruídos a prestar atenção nas sensações que sentíamos no triângulo de pele que vai desde a base do lábio superior até a entrada das narinas. Nesse fantástico latifúndio cutâneo de 2cm quadrados, o que vc sente? Sem pressa, vc tem mais 48 h inteirinhas só pra isso. E pra quebrar cada pedacinho de vc que ainda estiver inteiro.
Tinha minhas 2 almofadinhas, peguei mais umas 3 e achei que já tava bom demais. Arrumei do jeito que melhor consegui e sentei com as pernas cruzadas normalmente na frente. Vamos com calma, lá pelo meio do curso eu já devo estar meditando naquela postura de lótus das estátuas de Buda ou quem sabe de ponta cabeça com o dedão do pé esquerdo cruzando pela frente da axila direita. Sentei e fiquei praticando anapana durante umas duas horas até não sentir mais nada abaixo do joelho esquerdo, uma queimação intensa em toda a perna direita, a bunda pegando fogo, a coluna lombar completamente destroçada, os ombros sem posição e a nuca com um torcicolo incipiente. Achei que pra primeira sessão já tava bom demais e resolvi lavar o rosto no banheiro do alojamento. Na parede do banheiro tinha um relógio, quando entrei tava marcando 4h40. Olhei de novo. Se eu levantei às 4h, tomei banho e escovei os dentes devem ter passado uns 20min. Quer dizer que essas duas horas meditando foram só uns 15 a 20 minutos? Nesse momento eu lembrei do meu recém-falecido relógio de pulso, olhei pras próximas horas e dias e tive pela primeira vez vontade de ir embora. Mas eu já estava ali, tinha me proposto a fazer o pacote completo, ia ficar morrendo de vergonha de dizer que tinha amarelado e ido embora. Vamos, rapaz, seja homem, volte pra sala. Ao longo das sessões de meditação desses 10 dias eu arrumei minhas 5 almofadinhas de 4.386 maneiras diferentes e tentei outras 3.981 variações de posições corporais, sempre sem sucesso. Era sentar e depois de uns 20 a 30 minutos não aguentava mais e tinha que trocar de posição. Lembrei das centenas de almofadinhas no fundo da sala e resolvi buscar mais umas mas já era tarde, haviam sido todas saqueadas pelos outros alunos, tão desconfortáveis quanto eu. Tinha gente com 8, 9, até 11 almofadas! Descobri que 3 companheiros haviam recuado seus tapetinhos até o fundo da sala pra ficar com as costas apoiadas na parede. Arrastei-me penosamente até o Gregory, fiz minha melhor cara de cachorro pidão, pedi pra ir pro fundo e ele concordou. Lembrei da época da escola, no fundo da sala de aula sempre fica a galera que não quer nada, os baderneiros, pessoal com déficit de atenção, os repetentes. Lembrei do Tropa de Elite: “tá com medinho, senhor zero-um”? Troquei feliz o que restava da minha dignidade pelo último espaço na parede e achei que meus problemas estavam resolvidos. Melhorou quase nada. Quase nada mesmo. Comecei a me desesperar. E assim passaram o 1o e o 2o dia, com muito sofrimento mas pelo menos muita concentração. O anapana realmente funcionava, a mente começava a ficar mais focada e afiada e eu pensei que ia sair do retiro paraplégico mas pelo menos muito concentrado. Bola pra frente.
Na noite do Dia 2, após 48 h de “o ar que entra, o ar que sai, assim como entra, assim como sai”, fomos instruídos a prestar atenção nas sensações que sentíamos no triângulo de pele que vai desde a base do lábio superior até a entrada das narinas. Nesse fantástico latifúndio cutâneo de 2cm quadrados, o que vc sente? Sem pressa, vc tem mais 48 h inteirinhas só pra isso. E pra quebrar cada pedacinho de vc que ainda estiver inteiro.
meu Deus.... fiquei "um pouco" apreensiva agora...
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