Na noite do Dia 4 fomos finalmente introduzidos à técnica de Vipassana. Basicamente consiste em observar objetivamente quaisquer sensações corporais, sem identificar-se com as mesmas, sem gerar formações mentais (sankharas) de aversão às sensações ruins nem de cobiça pelas sensações boas (é preferível usar os termos “sensações grosseiras e sensações sutis”), mantendo a equanimidade da mente. Isso supondo que dali em diante, progredindo na técnica, vc fosse capaz de sair dos 100% de sensações grosseiras que minavam a resistência minuto a minuto e começasse a sentir tb coisas sutis. Foram introduzidas tb as sessões de Adhitthana, ou Sessões de Forte Determinação: três vezes por dia, nas sessões de meditação em grupo, vc deve ficar por uma hora completa mantendo a mesma postura, sem mexer os pés, as mãos ou a cabeça. Até aqui as dores físicas tinham sido pavorosas, a partir daqui virou um inferno. E não só isso; apesar do corpo em frangalhos até aqui a mente estava ficando mais aguçada. A partir do 4º dia eu despenquei em queda livre, morri 10 vezes todo dia, tudo doía. Não só o corpo estava destroçado, a mente tb estava começando a dar sinais de falência. Comecei a ter lembranças do passado e do presente, sonhos em 3ª pessoa, o sensório completamente perturbado, sentindo cheiros, gostos e sons que obviamente não estavam ali, todos os pernilongos do retiro pareciam ter gostado do sabor do meu sangue e eu não podia matar nenhum, ou tava chovendo pra cacete ou tava abafado pra cacete, a voz grave em inglês com sotaque indiano do Goenka me irritava profundamente, a voz com sotaque pãulistããã da mulher que depois fazia a tradução em português e parecia que estava falando com crianças de 6 anos me levava às raias da fúria. Todas as minhas articulações crepitavam ao menor movimento, meu estômago e intestino já tinham trocado de lugar várias vezes, eu andava mancando um pouco do pé direito que já tinha a impressão em baixo-relevo da almofada onde ele se apoiava, uma dor latejante na musculatura lombar acompanhava cada passo, o pescoço ardia, eu me sentia num campo de concentração submetido a torturas nazistas, suplícios japoneses, os epiléticos sendo queimados na fogueira na época da Inquisição, os sacrifícios humanos dos incas, imagens grotescas de todos os filmes que eu já tinha visto desde Hellraiser (1 & 2) até a cena em que o condenado é queimado vivo na cadeira elétrica no filme The Green Mile, com o Tom Hanks. As mudanças de posição eram cada vez mais frequentes, o alívio era cada vez mais fugaz, era como um viciado precisando de doses cada vez maiores de droga a intervalos cada vez menores. Comecei a pensar em todas as drogas analgésicas que eu, anestesista, conheço tão bem, quase completei mentalmente o projeto de uma máquina para auto-indução de anestesia, involuntariamente eu ficava repetindo “morfina, morfina, morfina”, lembrei de todos os pacientes nos quais eu subvalorizei sintomas de dor. A essa altura já tinha passado o 5º, o 6º, o 7º, o 8º dia, eu ainda não tinha conseguido fazer nenhuma Adhitthana completa e estava profundamente frustrado com isso, gerando sankharas e mais sankharas de aversão. Daqui a pouco o curso acaba, eu pensei, e não vou conseguir chegar a lugar algum, é sensação grosseira em cima de sensação grosseira, preciso me esforçar mais mas não consigo. Frustração. Frustração. Frustração. Se eu não tivesse operado minha miopia seria mais um par de óculos pro cemitério.
Babel
3 semanas atrás
eu não ia escrever nada aqui por não saber o que dizer... mas escrevi pra vc saber como ficou meu estado de espírito com essa descrição sua... estou só pensando nas dores que vc sentiu e na agonia que vc deve ter passado...
ResponderExcluirDaniel, minha curiosidade sobre estes locais de meditaçao e cia aparentemente encerra-se neste momento.Pernilongo,ras, sapinhos,agua gelada sem opção, possiveis dores musculares ou aleijamento pelo resto da vida em decorrencia da falta de alogamento devido a idade....sem chance..mas acho que vc estava receptivo antes de ir p lá ja que sensorialmente vc se debruça por muitos detalhes em relaçao a todo o processo, desde a IDA.Vou continaur lendo...:-)) Marzi
ResponderExcluirps
que m é essa de postar perfil aqui? nao posso apenas comentar??? nao tem url como faço...????
Estou acompanhando dia a dia essa aventura... Coragem sua...
ResponderExcluirPosso falar a verdade? Achei graça na sua dor!! No seu sofrimento! Te imaginei lá, com esses pensamentos, e me deu muita vontade de rir!! Não pelo seu sofrimento em si, mas de pensar na situação, de te imaginar falando todos os palavrões do mundo (só na mente, claro)!!
ResponderExcluirBom, vou continuar lendo pra ver o final da novela.
Olha, vc está me animando de fazer o curso. Já passei seu texto - diário - para várias pessoas.
ResponderExcluirEu estou rindo de adorar... se estava em dúvida, até agora, já DECIDI.. EU VOU...
OBRIGADA
Parabéns!!!!!!
ResponderExcluirMe animei também. Estou inscrita para fazer o curso em março - aliás - em lista de espera.
Juro que ao terminar, responder melhor seu comentário..
ADOREI TUDO QUE VC ESCREVEU!! ESTOU ME SENTINDO NO ESPELHO...