quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Vipassana 5 - Renascimento

O 9º dia chegou. A chuva tinha parado lá pelo 7º dia e tinha começado a esquentar. A sessão noturna de Adhitthana ia começar e eu me sentei pra mais uma experiência de dor e frustração por não conseguir ficar imóvel durante os 60 minutos. Uma chuva torrencial lá fora, relâmpagos, trovões, a natureza gritava "otário". Não que eu me importasse muito, estava entrando numa espécie de niilismo, nada mais importava. Os pernilongos nem conseguiam mais voar ao final das sessões de meditação, de tão gordos. Uma mosca-varejeira curiosa ficava voando perto da minha cabeça, eu chegava a sentir o ventinho das asas do bicho de tão perto que ela chegava, nem ligava. E foi justamente aí, quando a mente estava flutuando entre mim e minhas sensações, desistindo de brigar contra o que me gerava aversão, que me deu um estalo. Sentei de pernas cruzadas, fui dar uma espreguiçada antes de começar a Adhittana, estiquei o corpo todo pra trás, bem reto, coluna alinhada, ombros e cabeça erguidos e não consegui mais voltar à posição do corcunda de Notre-Dame dos últimos 8 dias. Não que eu tivesse travado por conta de uma hérnia de disco ou coisa parecida. Eu simplesmente não queria mais voltar. As dores sumiram, a mente acalmou e eu nunca tinha me sentido tão em paz na minha vida. Comecei um anapana concentradíssimo, passei pro triângulo abaixo do nariz, comecei vipassana do alto da cabeça e fui descendo, descendo, descendo, até as pontas dos dedos dos pés. Delicados formigamentos, ondas de calor, sensação de pétalas de rosa passando pelo meu braço, fracas descargas elétricas subindo e descendo pela coluna vertebral, aquela sensação de pré-calafrio que não chega a abalar o corpo, o coração batendo beeem devagar, antes que eu me desse conta o professor ligou de novo o som para os cânticos finais, já tinha se passado uma hora e eu ali, de olhos fechados, sem perceber o tempo. Acabou a Adhitthana e eu senti um cutucão do lado esquerdo. Meu vizinho na turma dos repetentes apontou pra janela aberta, pra mim e pro chão encharcado. Eu tinha tomado chuva durante uma hora, meu cabelo parecia que tinha saído do banho e o chão ensopado, e eu nem tinha me incomodado com isso. Nibbana! Quem sabe ao invés de "otário" a Natureza estivesse dizendo "anicca"? Continuei na postura durante a palestra em áudio e depois durante a sessão de perguntas, saí pra tomar um banho e fui pro quarto meditar sentado na cama. Tive até que me controlar pra não gerar sankharas de cobiça, mas no fundo eu estava feliz demais, realizado.


Na manhã do 10º dia eu fui correndo meditar, cobiçoso das sensações sutis da noite passada, mas aí voltou uma dorzinha leve no joelho direito e no quadril. Dei uma gargalhada interna: olha a impermanência aí! Tudo que surge, desaparece. Impermanência, impermanência, impermanência. Anicca, anicca, anicca. Como a gente já tinha ouvido tantas vezes, vc não pode medir a eficácia da sua meditação pelo número de sensações grosseiras ou sutis que percebe. Uma sensação é apenas uma sensação, seja ela sutil ou grosseira, todas elas compartilham uma mesma característica que é a de surgir e desaparecer, surgir e desaparecer. O único parâmetro fiel é a equanimidade, a perfeita e imperturbável paz, seja qual for a sensação. E eu estava em paz.


Aí surge a pergunta que eu tb fiz ao professor. Mas isso não leva a uma vida de monotonia, sem pulsões, sem vontades? A gente tá acostumado a associar paz a falta de prazer, de alegria. E os prazeres da vida? E a comida, e o sexo, aquela viagem de férias pra um lugar legal, uma reunião cercado de amigos, um doutorado naquela universidade famosa, aquela promoção bacana, um bom livro? A verdade é que o conceito de cobiça e aversão não é de muita utilidade intelectualmente falando. É a diferença entre conhecer alguma coisa e experimentá-la. O treinamento de manter a equanimidade frente às sensações é para o nível mais primitivo de consciência. Vc pode até intelectualizar e aí, quando leva uma fechada no trânsito ou perde aquela promoção que queria tanto, vc pára uns 15 segundos e decide que aquilo não vai perturbar a sua paz. Mas um pequeno sankhara de cobiça ou aversão já foi criado, imediatamente, assim que vc experimenta a sensação. Com a prática de Vipassana a intenção é que vc nem precise parar esses 15 segundos pra decidir não se perturbar; vc simplesmente permanece equânime, ponto. E aí sim, vc está pronto pra aproveitar muito mais todas as coisas boas da vida. Viver mais e melhor a realidade da vida. Que é o que Vipassana é: ver as coisas como elas realmente são.


Não, eu não virei um faquir. Não, eu não levitei nem aprendi a falar com os animais. Não meditei de cabeça pra baixo ou em posições exóticas, continuei sentindo dores até o final do curso, se bem que menos intensas que durante os primeiros 8 dias (dor reativa?). Não alcancei estados profundos de samadhi, não entrei em transe, não descobri a verdade do universo, não sei se existe vida em outros planetas nem consegui o telefone da Uma Thurman. Mas alcancei plenamente os objetivos a que tinha me proposto quando decidi ir e outros que nem imaginava. Aprendi coisas que não conhecia, tomei contato com um mundo novo e pensamentos novos. Expandi meus limites espirituais, mentais e físicos. Estudei nove anos pra virar anestesista pra descobrir que bastam algumas almofadas e um pouco de Adhitthana pra me mostrar o quão pouco eu entendo de dor e das suas relações com a mente. Conheci pessoas fantásticas dos quatro cantos do Brasil e do mundo, Rio, Sampa, Brasília, Chapada dos Veadeiros, Curitiba, Rio Grande do Sul, Alemanha, Espanha, Inglaterra, EUA, Itália, Paraguai, até da Argentina veio gente legal, veja só vc o poder do Vipassana. Aprendi que se pode ganhar um irmão em 10 dias e sem falar nada (olha a equanimidade, Paulo!). Aprendi que ainda tem muita gente boa nesse mundo, gente com coração, gente realmente livre pra amar o mundo todo. Recuperei a confiança na raça humana. Mudei meus conceitos sobre religião e espiritualidade. Aprendi a ser mais disciplinado, a comer melhor, a dormir melhor, a respirar melhor, a trabalhar melhor, a me relacionar melhor, a viver melhor, a amar mais e melhor. Foi a experiência mais transformadora da minha vida.

Bhavatu sabba mangalam.

16 acabativas:

  1. nossa! Estou orgulhosa (e com uma certa inveja) de vc rs (será que estou louca?!) Parabéns meu amigo querido! Um beijo enorme

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  2. Como é de se esperar, seu amigo chorão se emocionou dezenas de vezes em seu relato tão rico.
    Impossível não me emocionar com experiências transformadoras. É o que todos de alguma forma almejamos. É o que sempre desejo para quem amo.
    Obrigado por partilhar algo assim conosco, vc ainda nos ensinará muito!
    De um destruidor de óculos a um construtor de visões. A criança que não queria ver encontrou o mundo não visto.
    O destino nos prega peças...

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  3. To impressionada.
    "Conheci pessoas fantásticas dos quatro cantos do Brasil e do mundo, Rio, Sampa, Brasília, Chapada dos Veadeiros, Curitiba, Rio Grande do Sul, Alemanha, Espanha, Inglaterra, EUA, Itália, Paraguai, até da Argentina veio gente legal, veja só vc o poder do Vipassana. Aprendi que se pode ganhar um irmão em 10 dias e sem falar nada (olha a equanimidade, Paulo). "

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  4. Existe a possibilidade de uma pessoa já praticar o tal "vipassando", sem saber que isso tinha um nome? E sem saber que isso era uma técnica não sei das quantas?
    Eu acho que eu vialgumacoisapassandoemalgumlugar sim...
    E quem quiser, que me atirem as pedras.

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  5. Eu acho que vc pratica vipassana há muito tempo...

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  6. Adorei seu blog!
    Cheguei até aqui através do miraculoso google, ao pesquisar sobre Vipassana.
    Estou me corroendo aqui, querendo ir para o retiro agora mesmo. Estou tentando meditar, mas é realmente assustador perceber quanto minha mente me domina. Lutar contra as tais sensações grosseiras é incrívelmente difícil nesse cotidiano caótico! É preciso se esforçar muito e por muito tempo.
    Enfim! Um abraço.

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  7. Obrigado, Clara. Dominar a mente realmente requer muita dedicação mas não lute contra as sensações grosseiras. Elas - assim como as sensações sutis e todo o resto - são impermanentes. Boa sorte e um abração.

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  8. Olá Daniel.
    Vou fazer esse curso no final desse mês.
    Gostaria de saber se você já tinha prática de meditação.
    Pergunto isso porquê sou iniciante (pratico 20/30 minutos por dia) e estou meio "assustado" com toda essa carga horária (cerca de 12 horas sentado por dia).

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  9. Emerson, eu não tinha experiência alguma de meditação, nem esses seus 20-30 minutos. De fato, é uma experiência algo violenta mas vc não vai ficar "assustado" só pq eu tô falando, né? ;-) Vai, cara, se joga, depois vc vê se aguenta ou não. Abração.

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  10. Obrigado por responder!!
    Achei que você já tinha bagagem em meditação.
    Sendo assim, vejo apesar de "assustador", não é algo impossível......rsrsrs

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  11. Ola, gostaria de fazer amizade e tb saber mais sobre a meditação vipassana. Um forte abraço

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  12. Gostei to teu relato. Estou indo na próxima semana fazer Vipassana. Os relatos que estou lendo cria uma sensação de aversão e apego.
    Vou levar comigo os relatos e tirar o melhor proveito do processo ! Abraços e sucesso.

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  13. Engraçado vc comentar isso, Quarteto. Cobiça e aversão. Depois do retiro vc me conta como foi tua experiência e tua relação com essas duas sensações. Ótimo retiro pra vc! Paz.

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  14. REALMENTE, DEPOIS DE ESTAR NA LISTA DE ESPERA FUI PESQUISA SOBRE O ASSUNTO E ENCONTREI SEU DEPOIMENTO ESCLARECEDOR.. SEU PAPEL É TAMBÉM DE CONTRIBUIR COM A TURMA QUE ESTÁ INDO..
    JÁ PASSEI DIAS EM FIGUEIRA/CARMO DO CACHOEIRA/MG- TRABALHO DO TRIGUEIRINHO EM 1990.
    AGORA RETORNO PARA A CAMINHADA, MTO ANIMADA E FELIZ... OBRIGADA...

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  15. Oi!
    Começo o curso de Vipassana no dia 24/03. Antes de ir resolvi me informar um pouco e terminei achando o teu diário. Antes de tudo, quero dizer que foi uma leitura muito divertida, muito mesmo. Mas também foi dolorosamente reveladora (ai, minhas costas!) do que devo encontrar pela frente. Uma sugestão que anotei para não esquecer de jeito nenhum: roubar aquelas 150 almofadas todas para mim logo no início; e encostar na parede imediatamente, sem pedir licença ao tal bedel.
    Como você, também vou ao curso por sugestão de amigos queridos, gosto de programas de índio (com algumas ressalvas em relação a banheiros) e, o mais importante, estou em fase de transição pessoal - o que significa que experiências assim, diferentes de tudo o que eu já fiz na vida, estão me atraindo como imã de geladeira.
    Também como você, não tenho um objetivo claro a ser atingido lá dentro. Não tenho a pretensão de sair de lá zen, como é o meu grande sonho de consumo, o dever de casa que elegi. Não, isso ainda demora - se é que acontecerá algum dia, pois venho é me tornando cada vez mais inquieta. De qualquer modo, tenho a esperança de, quem sabe, iniciar em Miguel Pereira um processo de... chamemos de auto-reformatação, de reinvenção pessoal. Quem sabe, não é?
    Te conto quando acabar, se eu sobreviver e você quiser me ouvir, naturalmente.
    É isso! Um beijo e boa noite!
    Rejane
    PS. A propósito: eu acho que você grafou "fudeu" errado. Pensa bem: é foda, não é fuda.

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  16. Oi!
    Começo o curso de Vipassana no dia 24/03. Antes de ir resolvi me informar um pouco e terminei achando o teu diário. Antes de tudo, quero dizer que foi uma leitura muito divertida, muito mesmo. Mas também foi dolorosamente reveladora (ai, minhas costas!) do que devo encontrar pela frente. Uma sugestão que anotei para não esquecer de jeito nenhum: roubar aquelas 150 almofadas todas para mim logo no início; e encostar na parede imediatamente, sem pedir licença ao tal bedel.
    Como você, também vou ao curso por sugestão de amigos queridos, gosto de programas de índio (com algumas ressalvas em relação a banheiros) e, o mais importante, estou em fase de transição pessoal - o que significa que experiências assim, diferentes de tudo o que eu já fiz na vida, estão me atraindo como imã de geladeira.
    Também como você, não tenho um objetivo claro a ser atingido lá dentro. Não tenho a pretensão de sair de lá zen, como é o meu grande sonho de consumo, o dever de casa que elegi. Não, isso ainda demora - se é que acontecerá algum dia, pois venho é me tornando cada vez mais inquieta. De qualquer modo, tenho a esperança de, quem sabe, iniciar em Miguel Pereira um processo de... chamemos de auto-reformatação, de reinvenção pessoal. Quem sabe, não é?
    Te conto quando acabar, se eu sobreviver e você quiser me ouvir, naturalmente.
    É isso! Um beijo e boa noite!
    Rejane
    PS. A propósito: eu acho que você grafou "fudeu" errado. Pensa bem: é foda, não é fuda.

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