Ontem foi aniversário da minha mãe. Vejam bem, tanto ela quanto meu pai são pessoas difíceis de presentear. Não que sejam muito críticos ou exigentes mas porque há poucas posses terrenas que "encham os olhos" deles. Enfim, após cuidadosa e sub-reptícia pesquisa de mercado, optei por comprar uma bolsa e escolhi para isso ir ao shopping na propícia ocasião do sábado à noite pré-Dia dos Pais, a melhor opção para quem não gosta de multidões.
Após abrir caminho a cotoveladas entre as hordas ensandecidas de consumidores, entrei na loja com aquela cara de cachorro que caiu do caminhão da mudança que revelava que eu não tinha a menor noção do que iria comprar. A vendedora, feito um tubarão-branco, farejou o sangue na água e partiu decidida para o ataque - em menos de 2 minutos eu estava soterrado por 178 modelos de bolsas de todas as cores, tamanhos, detalhes e propostas de uso. A única coisa comum a todas era o preço, alto.
Martirizando-me pela idéia de regatear o preço de um presente para quem me deu nada menos que a vida e para satisfação da vendedora, resolvi ignorar as etiquetas e apenas tentar reduzir as opções. Vou poupar o caro leitor da saga completa e pular para a parte em que optei por um modelo e fui ao caixa pagar, que é onde aconteceu o episódio que motivou esse post.
Esperando para pagar também, ao meu lado no balcão, estava uma jovem senhora muito elegante que tinha sido atendida pela mesma vendedora-tubarão que eu. Aliviado ao pensar do que tinha escapado (a Imelda Marcos tupiniquim estava levando umas 7 ou 8 bolsas), presenciei então o seguinte diálogo entre as duas:
(Vendedora, segurando outra bolsa nas mãos, num derradeiro golpe de misericórdia)
"Olha! Chegou aquela bolsa que vc tinha reservado, não é uma graça? Aproveita e leva também!"
Comentário: "aproveita" o quê, minha filha? Que a freguesa estourou o orçamento familiar do mês e o PIB da Noruega comprando bolsas? E nem venha me dizer que era véspera de Dia dos Pais e as bolsas não eram pra consumo próprio, a não ser que todos os 7 pais dela sejam drag queens. Fim de comentário.
(Freguesa, colocando a bolsa no ombro e olhando-se no espelho com um brilho genuíno nos olhos)
"Noooooooooooooooooossa, que linda, maravilhosa, muito linda mesmo, fantástica, uma graça, uma beleza! Mas não sei se gostei muito dessa bolsa..."
Lógico, a alma feminina é demasiado complexa para ser medida por simples palavras. "Não sei se gostei muito dessa bolsa" poderia significar que ela não gostou da cor, do tamanho ou do material, que não tem nenhuma roupa pra combinar, que estava preparando o terreno pra negociar o preço, que ela não tinha a altura certa para aquele modelo de bolsa, enfim... qualquer coisa.
Mas o que eu gostaria de propor é assumirmos que o fato dela dizer "não sei se gostei muito dessa bolsa" tenha o improvável significado de que... ela não gostou muito da bolsa. O que nos leva à questão que vem me ocupando desde então: é possível achar uma coisa linda, fantástica e maravilhosa e não gostar muito dela? Sim, eu sei que é possível gostar muito de coisas que decididamente NÃO são lindas, fantásticas e maravilhosas. Qual a relação entre estética e desejo?
Mistérios, mistérios...
Mas mistério mesmo é como alguém pode ter 7 pais, todos drag queens.
Sem duvida, consigo imagina-lo presenciando esse momento. Sua cara, olhares e sorrisos... Adorei!
ResponderExcluirSua linha de raciocínio me surpreende a cada dia! Rs Adorei!!
ResponderExcluirNão sei se vc conseguiu encher os olhos da sua mãe, mas os meus, com certeza! A imagem das 178 bolsas e vc simplesmente ignorando as etiquetas... inspirador!
A relação entre estética e desejo é um mistério desde a época de platão onde nem o termo "estética" existia ainda. Até hj em dia nos vemos perdidos neste dilema.
ResponderExcluirMas o fato dela ter 7 pais, todos drag queens me remete à algo tipo gaiola das loucas rsrsrs