quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Deu cupim

Outro dia fui passear no Jardim Botânico. Aliás, recomendo. Tem uns cantos muito belos. Mas enfim, estava eu passeando pelo Caminho da Mata Atlântica, um pedacinho perto do Orquidário com uma espécie de trilha bem no meio da mata, cercado de ambos os lados por árvores que fazem uma sombra contínua e margeado por um córrego que faz aquele hipnótico marulhar que dá sono no final de tarde quando resolvi parar pra contemplar as intrincadas relações da natureza. Dois besouros rola-bosta disputando um pedaço de merda. A azáfama caótica dos insetos voadores ao redor dos bagos decompostos de uma jaca caída. Uma trilha de incansáveis formigas carregando pedaços de folhas. Aranhas esperando algum inseto incauto cair em suas teias de diamante. Uma colônia de cupins instalada num tronco de árvore meio apodrecido, caído de lado.

Nesse momento passa um casal de meia-idade, a senhora olha o cupinzeiro e comenta com o maridão:

"Ah, olha só que pecado aquela árvore caída. Deu cupim."

"Deu cupim" como, minha senhora? Aqui o cupim não dá. O cupim É. As formigas são, as orquídeas são, os pernilongos são, a grama é. Tudo aqui é do jeito que devia ser.

Acho que ouvi a senhorinha pensando em dedetizar tudo e asfaltar o caminho de terra.

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