segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Da estética e do desejo

Ontem foi aniversário da minha mãe. Vejam bem, tanto ela quanto meu pai são pessoas difíceis de presentear. Não que sejam muito críticos ou exigentes mas porque há poucas posses terrenas que "encham os olhos" deles. Enfim, após cuidadosa e sub-reptícia pesquisa de mercado, optei por comprar uma bolsa e escolhi para isso ir ao shopping na propícia ocasião do sábado à noite pré-Dia dos Pais, a melhor opção para quem não gosta de multidões.

Após abrir caminho a cotoveladas entre as hordas ensandecidas de consumidores, entrei na loja com aquela cara de cachorro que caiu do caminhão da mudança que revelava que eu não tinha a menor noção do que iria comprar. A vendedora, feito um tubarão-branco, farejou o sangue na água e partiu decidida para o ataque - em menos de 2 minutos eu estava soterrado por 178 modelos de bolsas de todas as cores, tamanhos, detalhes e propostas de uso. A única coisa comum a todas era o preço, alto.

Martirizando-me pela idéia de regatear o preço de um presente para quem me deu nada menos que a vida e para satisfação da vendedora, resolvi ignorar as etiquetas e apenas tentar reduzir as opções. Vou poupar o caro leitor da saga completa e pular para a parte em que optei por um modelo e fui ao caixa pagar, que é onde aconteceu o episódio que motivou esse post.

Esperando para pagar também, ao meu lado no balcão, estava uma jovem senhora muito elegante que tinha sido atendida pela mesma vendedora-tubarão que eu. Aliviado ao pensar do que tinha escapado (a Imelda Marcos tupiniquim estava levando umas 7 ou 8 bolsas), presenciei então o seguinte diálogo entre as duas:

(Vendedora, segurando outra bolsa nas mãos, num derradeiro golpe de misericórdia)
"Olha! Chegou aquela bolsa que vc tinha reservado, não é uma graça? Aproveita e leva também!"

Comentário: "aproveita" o quê, minha filha? Que a freguesa estourou o orçamento familiar do mês e o PIB da Noruega comprando bolsas? E nem venha me dizer que era véspera de Dia dos Pais e as bolsas não eram pra consumo próprio, a não ser que todos os 7 pais dela sejam drag queens. Fim de comentário.

(Freguesa, colocando a bolsa no ombro e olhando-se no espelho com um brilho genuíno nos olhos)
"Noooooooooooooooooossa, que linda, maravilhosa, muito linda mesmo, fantástica, uma graça, uma beleza! Mas não sei se gostei muito dessa bolsa..."

Lógico, a alma feminina é demasiado complexa para ser medida por simples palavras. "Não sei se gostei muito dessa bolsa" poderia significar que ela não gostou da cor, do tamanho ou do material, que não tem nenhuma roupa pra combinar, que estava preparando o terreno pra negociar o preço, que ela não tinha a altura certa para aquele modelo de bolsa, enfim... qualquer coisa.

Mas o que eu gostaria de propor é assumirmos que o fato dela dizer "não sei se gostei muito dessa bolsa" tenha o improvável significado de que... ela não gostou muito da bolsa. O que nos leva à questão que vem me ocupando desde então: é possível achar uma coisa linda, fantástica e maravilhosa e não gostar muito dela? Sim, eu sei que é possível gostar muito de coisas que decididamente NÃO são lindas, fantásticas e maravilhosas. Qual a relação entre estética e desejo?

Mistérios, mistérios...

Mas mistério mesmo é como alguém pode ter 7 pais, todos drag queens.

terça-feira, 17 de março de 2009

Um notebook e 1 kg de feijão



Outro dia fui levar minha mãe pra almoçar. Papo vai, papo vem, colocando as novidades em dia, fiquei sabendo que eles tinham contratado um caseiro novo pra dar uma força, limpar a piscina, podar as plantas, dar banho no cão, fazer aqueles serviços que antigamente eram minha responsabilidade.

Enfim, o caseiro novo parece que é gente muito boa, trabalhador, criativo, cheio de iniciativa, bem capacitado, sabe até ler e digitar, disse minha mãe. Nossa, além de ler e escrever ele sabe até digitar! Não, respondeu ela, já saboreando meu ar de confusão: ele sabe ler e digitar. Ponto. Se ela tivesse falado que o George Bush tinha dado uma entrevista falando que seu ídolo político era Harvey Milk (aliás, filmaço!) e assumindo sua homossexualidade escondida durante todos esses anos, ou talvez que o Maradona tinha reconhecido que o Pelé é o maior futebolista de todos os tempos, acho que não ia provocar um espanto maior.

Tem idéias que a gente reluta em admitir simplesmente porque as coisas sempre foram do mesmo jeito, mas existe alguma razão realmente concreta pra aprender a usar lápis e papel ao invés de digitar? Digitar é muito mais rápido, mais eficiente, mais avançado. É Ctrl+X, Ctrl+C e Ctrl+V, a santíssima trindade abençoando aqueles que, como eu, odeiam escrever. E não me venha com purismos, tenho certeza de que vc já se pegou pensando como seria bom se tudo fosse digitado ao tentar decifrar uma receita médica escrita em javanês arcaico. Lógico que no processo perde-se o aspecto lúdico e pessoal da coisa. Um email é legal, MSN, SMS, essas coisas são ótimas e práticas mas nada supera a boa e velha carta, escrita em papel, manchada com o suor do punho, quem sabe uma lágrima, aquele cheirinho familiar, o jeito que ela faz a perninha do "o", aquele "f" com cara de "t", a maneira que a letra vai mudando ao longo do texto...

Li em algum lugar uma definição interessantíssima dos EUA como "o único império que passou da barbárie à decadência sem passar pela civilização". Pensei logo no nosso Brasilzão, o gigante do futuro e das contradições. Lápis e papel é coisa do passado, alfabetização que nada, viva as aulas de informática nas escolas públicas que não têm merenda. A palavra de ordem agora é um notebook em cada lar. Um notebook ou 1 kg de feijão, o que vier primeiro. Estaremos passando do analfabetismo direto à era digital? Do MOBRAL às viagens interplanetárias? Da moqueca ao McDonald's? Do café passado na meia ao Starbucks?

Aliás, falando em McDonald's e para os apreciadores da trash-food como eu, uma comparação que talvez explique o que estou querendo dizer. Você vai ao McDonald's a qualquer hora do dia, em qualquer dia do ano, em qualquer esquina de qualquer cidade, em qualquer continente, quem sabe até em outros planetas e sistemas solares e o Big Mac vai ter sempre o mesmo aspecto, peso e gosto, previsível, asséptico, industrial, meticulosamente montado em quantidades exatas, entregue na sua bandeja em menos de 2 minutos com o "M" sempre virado pra vc. No Bob's não. Aliás, o Big Bob deveria ser proibido para crianças com menos de 12 anos devido ao número excessivo de peças contidas na embalagem - algumas delas com potencial risco para a vida, diga-se de passagem. Após um tempo de espera que depende da filial do Bob's que vc frequenta e que varia entre 1 e 38 minutos, vc recebe seu Big Bob, abre a caixinha e é apresentado ao caos. Parece que explodiu uma granada ali dentro. O sanduíche vem todo torto, desmontado, lambuzado, montado em ordens diversas, com quantidades variadas de molho de aspecto duvidoso, a carne em pontos diferentes, absolutamente imprevisível. Mas basta dar a primeira mordida pra vc sentir que enterrou os dentes em algo profundamente humano.

Digitar é McDonald's. Escrever é Bob's.
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(créditos da foto)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Don't divorce us

Talvez seja um post difícil. Ou talvez o fato de eu achar difícil um post que deveria ser tão simples quanto qualquer outro revele a minha homofobia. Ou talvez eu esteja preocupado demais. Enfim...

Interessante como a internet nos leva a conexões aleatórias e "arbóreas". Vc começa a pesquisar métodos de ventilação mecânica em pacientes graves e quando vê dá de cara com esse video. Ao que parece, na calada da noite e aproveitando toda a distração causada pela Obamania, foi aprovada na Califórnia (Californication?!?!) uma lei que acrescenta "entre um homem e uma mulher" à definição de casamento na constituição estadual. Automaticamente, de uma hora pra outra, aproximadamente 18.000 casais homossexuais foram divorciados. A Courage Campaign iniciou uma campanha pedindo pras pessoas mandarem fotos pessoais com os dizeres "Don't divorce us" que foram então montadas em forma de vídeo.

São quase 4 minutos e tem de tudo um pouco. Tem fotos de casais de lésbicas e de gays masculinos, negros, brancos, asiáticos, casais gays e também interraciais, gays novinhos e gays sessentões. Tem uma menina segurando com os dentes um cartaz "Don't be a gaycist". Tem várias fotos de casais gays saindo de igrejas em cerimônias de casamento (quase) tradicionalíssimas, tem gay emocionado e chorando durante o próprio casamento. Tem o casal felicíssimo de gays de uns 60 anos idade em traje de gala completo de casamento, os dois de smoking branco com camisa preta, ele com colete rosa e o outro ele com colete branco, sorridentes. Tem o inusitado casal gay de sessentões fortões vestidos de preto segurando uma placa branca dizendo "Happily partnered - 46 years - Korean/Vietnam Veterans" e tem também o já esperado casal de gays novinhos, magrinhos, estilosinhos, camisa pólo agarradinha e um gato (o animal, de 4 patas) no colo. Tem as lésbicas saindo da igreja, ela de vestido de noiva e buquê e ela de terninho preto com cravo na lapela, tem outro casal de lésbicas num pequeno vídeo fazendo a (tradicional?) cena em que a noiva carrega a outra noiva no colo ao final do casamento. Tem uma respeitável senhora segurando um cartaz de "Please don't divorce my son & son-in-law" abraçada com dois caras que vc nunca diria que são gays. Tem o menininho de pijama com um papel "Please don't divorce my moms!". Tem um sorridente casal de lésbicas quarentonas lindas que fazem todos os homens hetero suspirarmos e tem também os casais que fogem dos padrões gregos de beleza: os gordinhos, os narigudos, os que se vestem de um jeito esquisito, os despenteados, todos gays, todos felicíssimos. Tem "Please don't divorce our friends", "Please don't divorce my uncles", "Please don't divorce my brothers", "Please don't break 32.000 hearts!", "Please don't divorce my sis'-in-law", "Please don't divorce our aunts", "Please don't divorce my dad & stepdad" da menina ladeada pelos dois papais gays, "Please don't divorce my co-workers". Tem filminho com cena de beijo depois de a ministra provavelmente dizer "eu vos declaro marido e marido, pode beijar o noivo".

Tá, os gays são felizes. Muito felizes. Pelo menos os que mandaram as fotos. E nem vou entrar na discussão do quanto é ridículo fazer leis dessa natureza. Mas havia algo mais nos rostos daquelas pessoas, não era só felicidade. Depois de ver o video umas 3 vezes, talvez tenha identificado uma pontinha de desafio ao mundo. É gente que lutou pra ficar junto em épocas ainda mais difíceis que agora, gente que teve que enfrentar preconceitos, que provavelmente encarou longas batalhas judiciais pra adotar filhos, casais de meia-idade que já passaram muita coisa juntos e casais novinhos que talvez ainda estejam "saindo do armário" e enfrentando muita coisa.

Talvez eles tenham essa ousadia que falta a muitos casais héteros. Porque pra nós, depois de uma certa idade, é quase uma obrigação ser um casal e eu não vou resistir à tentação de comentar esse assunto já tão comentado. Quantas vezes eu não ouvi "hmmm, rapaz bem-apessoado, 30 e poucos anos, uma boa profissão, interessante, divertido... e solteiro? Deve ter alguma coisa de errado. Ou é viado ou tem problemas emocionais graves." E quando se é um casal, ora, não é mais que sua obrigação! A família é a célula da sociedade, quando é que vem os filhotes, hein?, vcs foram feitos um para o outro e outras coisas que todo mundo já ouviu alguma vez na vida, os mesmos papéis no mesmo folhetim.

Mas a impressão que me passa o video, olhando todos aqueles rostos sorridentes, é de um certo desafio. De conquista, de vitória, de "foi difícil e por isso mesmo tem muito valor". Vini, vidi, vici. Talvez seja o que aconteça com o que eu gosto de chamar de "casais improváveis". Sabe aquele casal de amigos que vc nunca imaginou juntos? Do nada eles começam um romance e vc pensa que obviamente aquela aventura inconsequente não vai durar nem 2 meses. Anos depois, eles continuam firmes e fortes, mais juntos que nunca, sempre aprendendo um com o outro e felizes, muito felizes.

Esse post não é uma apologia ao homossexualismo nem ao heterossexualismo. É, sim, uma apologia ao desafio. Não àquele desafio raivoso, destruidor, agressivo, dos rappers do mal, dos pichadores da madrugada. É o desafio dos grafiteiros em plena luz do dia, da arte consciente, de gente que não se importa em fazer o que se deve fazer. É o desafio de duvidar da falsa moralidade e de também não se deixar levar pela falta de ética, de ser curioso como uma criança e paciente como um velho. É o desafio de encarar de frente o que é importante e de dar menos importância ao que de fato tem menos importância, de viver sem cobiça nem aversão, de construir, aproximar, somar, multiplicar, cuidar, crescer, amar. É o supremo desafio de desafiar-se a si mesmo.

Vou terminar como termina o video. Love will prevail.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Teatro de Papel


Tenho muita coisa pra escrever mas os rápidos rabiscos que faço não são dignos de serem palavras, muito menos o conjunto, poesia. Não, as palavras são atores e atrizes de uma peça, apresentada num Teatro de Papel. Primeiro marcam-se os testes, longos e exaustivos, sob os olhares críticos da rigorosa banca de seleção. O elenco escolhido deve representar nos mínimos detalhes o que o autor sonhou! Então começa a produção... há que se preocupar com o figurino de cada palavra, se serão escritas a tinta ou carvão, datilografadas, impressas, letra cursiva, de forma ou mesmo engarranchadas. O teatro tem que ser preparado, cenário, iluminação, bilheteria! Uma folha de caderno? O verso de um recibo amassado esquecido no fundo da carteira? Um guardanapo de bar? Novo ou usado? Ensaiar, ensaiar, ensaiar, rever cada marcação, mudar palavras de lugar, você pra cá, você pra lá, vocês todas desse parágrafo sobem e ficam no começo, vocês descem e só aparecem no final pra chocar o respeitável público. E sempre há algum ator que não rende o esperado ou não se adapta ao papel e tem que ser demitido. "Olha, infelizmente não há mais lugar pra você nessa peça." E lá se vai a triste palavra, andando cabisbaixa pela margem do papel, ombros caídos, balançando vagarosamente suas letrinhas ao longo do corpo enquanto a borracha lhe mostra a porta de saída. Dor, decepção, mas o show tem que continuar e os ensaios também, frenéticos! Cada ato da peça vai tomando forma, cada ator vai se encaixando com perfeição no seu papel e define-se o começo, meio e fim da peça, quase nunca nessa ordem. Finalmente, o dia da estréia! A atmosfera tensa, pode-se pegar o ar de tão denso, as palavras todas nos seus lugares, o lápis confere detalhes de última hora de um figurino meio torto, o papel todo iluminado, a sineta toca três vezes e... tá-dááá! Abrem-se as cortinas! Os olhos dos espectadores vão devorando cada palavra que as palavras dizem, cada detalhe da escrita, da grafia, do estilo, as licenças poéticas, a trilha sonora, os efeitos especiais! Os atos vão se sucedendo, um após o outro, a idéia do autor vai se misturando com as interpretações de cada palavra e então o grand finale! A casa cheia toda se levanta, aplausos, assovios, bravos! As palavras todas voltam ao palco, fazem uma demorada mesura e pouco a pouco os espectadores vão deixando o teatro, um após o outro. Os atores e atrizes vão para os seus camarins tirar a maquiagem e o figurino e voltam a ser apenas palavras com empregos comuns. Uma trabalha num jornal, outra numa empresa de outdoors, outra num manual de videocassete e parece que tem uma desempregada, uma tal de Sentimento. Está sem emprego há um tempão, parece que ficou obsoleta e agora só arruma emprego em peças de teatro. Mas depois que o último espectador acaba de sair, no teatro agora escuro e vazio, o lápis, uns 4 centímetros menor e com os olhos vermelhos de tanto chorar de emoção, sentado numa poltrona da primeira fileira, todo suado e com os olhos perdidos no vazio do palco, ainda vê ali cada palavra, cada detalhe, cada sensação. Revê na memória todos os ensaios, lembra de todo o trabalho, esforço e dedicação, olha para a própria ponta gasta, dá um profundo suspiro satisfeito e puxa um apontador do bolso do colete.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

The Road Not Taken


(poema mandado pra mim por alguém muito querida...)

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth.

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same.

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I--
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

(Robert Frost)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Sobra o quê?


Depois que você tira as conveniências sociais, as tradições familiares, os hábitos herdados e os costumes impostos, depois que abandona filosofias de prateleira e idéias não-investigadas, depois de despir-se da vistosa capa de respeitável pseudo-sensibilidade e abolidas as outorgadas Constituições exógenas, após serem vomitados os pré-conceitos e extirpado o carnegão furunculoso dos sectarismos, depois de revogados os títulos de propriedade da Verdade e após convencer-se de que vc é mais ser vivo que Homo sapiens... depois de tudo isso, sobra o quê? Sobra alguma coisa?
Sobra Você.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Vipassana 5 - Renascimento

O 9º dia chegou. A chuva tinha parado lá pelo 7º dia e tinha começado a esquentar. A sessão noturna de Adhitthana ia começar e eu me sentei pra mais uma experiência de dor e frustração por não conseguir ficar imóvel durante os 60 minutos. Uma chuva torrencial lá fora, relâmpagos, trovões, a natureza gritava "otário". Não que eu me importasse muito, estava entrando numa espécie de niilismo, nada mais importava. Os pernilongos nem conseguiam mais voar ao final das sessões de meditação, de tão gordos. Uma mosca-varejeira curiosa ficava voando perto da minha cabeça, eu chegava a sentir o ventinho das asas do bicho de tão perto que ela chegava, nem ligava. E foi justamente aí, quando a mente estava flutuando entre mim e minhas sensações, desistindo de brigar contra o que me gerava aversão, que me deu um estalo. Sentei de pernas cruzadas, fui dar uma espreguiçada antes de começar a Adhittana, estiquei o corpo todo pra trás, bem reto, coluna alinhada, ombros e cabeça erguidos e não consegui mais voltar à posição do corcunda de Notre-Dame dos últimos 8 dias. Não que eu tivesse travado por conta de uma hérnia de disco ou coisa parecida. Eu simplesmente não queria mais voltar. As dores sumiram, a mente acalmou e eu nunca tinha me sentido tão em paz na minha vida. Comecei um anapana concentradíssimo, passei pro triângulo abaixo do nariz, comecei vipassana do alto da cabeça e fui descendo, descendo, descendo, até as pontas dos dedos dos pés. Delicados formigamentos, ondas de calor, sensação de pétalas de rosa passando pelo meu braço, fracas descargas elétricas subindo e descendo pela coluna vertebral, aquela sensação de pré-calafrio que não chega a abalar o corpo, o coração batendo beeem devagar, antes que eu me desse conta o professor ligou de novo o som para os cânticos finais, já tinha se passado uma hora e eu ali, de olhos fechados, sem perceber o tempo. Acabou a Adhitthana e eu senti um cutucão do lado esquerdo. Meu vizinho na turma dos repetentes apontou pra janela aberta, pra mim e pro chão encharcado. Eu tinha tomado chuva durante uma hora, meu cabelo parecia que tinha saído do banho e o chão ensopado, e eu nem tinha me incomodado com isso. Nibbana! Quem sabe ao invés de "otário" a Natureza estivesse dizendo "anicca"? Continuei na postura durante a palestra em áudio e depois durante a sessão de perguntas, saí pra tomar um banho e fui pro quarto meditar sentado na cama. Tive até que me controlar pra não gerar sankharas de cobiça, mas no fundo eu estava feliz demais, realizado.


Na manhã do 10º dia eu fui correndo meditar, cobiçoso das sensações sutis da noite passada, mas aí voltou uma dorzinha leve no joelho direito e no quadril. Dei uma gargalhada interna: olha a impermanência aí! Tudo que surge, desaparece. Impermanência, impermanência, impermanência. Anicca, anicca, anicca. Como a gente já tinha ouvido tantas vezes, vc não pode medir a eficácia da sua meditação pelo número de sensações grosseiras ou sutis que percebe. Uma sensação é apenas uma sensação, seja ela sutil ou grosseira, todas elas compartilham uma mesma característica que é a de surgir e desaparecer, surgir e desaparecer. O único parâmetro fiel é a equanimidade, a perfeita e imperturbável paz, seja qual for a sensação. E eu estava em paz.


Aí surge a pergunta que eu tb fiz ao professor. Mas isso não leva a uma vida de monotonia, sem pulsões, sem vontades? A gente tá acostumado a associar paz a falta de prazer, de alegria. E os prazeres da vida? E a comida, e o sexo, aquela viagem de férias pra um lugar legal, uma reunião cercado de amigos, um doutorado naquela universidade famosa, aquela promoção bacana, um bom livro? A verdade é que o conceito de cobiça e aversão não é de muita utilidade intelectualmente falando. É a diferença entre conhecer alguma coisa e experimentá-la. O treinamento de manter a equanimidade frente às sensações é para o nível mais primitivo de consciência. Vc pode até intelectualizar e aí, quando leva uma fechada no trânsito ou perde aquela promoção que queria tanto, vc pára uns 15 segundos e decide que aquilo não vai perturbar a sua paz. Mas um pequeno sankhara de cobiça ou aversão já foi criado, imediatamente, assim que vc experimenta a sensação. Com a prática de Vipassana a intenção é que vc nem precise parar esses 15 segundos pra decidir não se perturbar; vc simplesmente permanece equânime, ponto. E aí sim, vc está pronto pra aproveitar muito mais todas as coisas boas da vida. Viver mais e melhor a realidade da vida. Que é o que Vipassana é: ver as coisas como elas realmente são.


Não, eu não virei um faquir. Não, eu não levitei nem aprendi a falar com os animais. Não meditei de cabeça pra baixo ou em posições exóticas, continuei sentindo dores até o final do curso, se bem que menos intensas que durante os primeiros 8 dias (dor reativa?). Não alcancei estados profundos de samadhi, não entrei em transe, não descobri a verdade do universo, não sei se existe vida em outros planetas nem consegui o telefone da Uma Thurman. Mas alcancei plenamente os objetivos a que tinha me proposto quando decidi ir e outros que nem imaginava. Aprendi coisas que não conhecia, tomei contato com um mundo novo e pensamentos novos. Expandi meus limites espirituais, mentais e físicos. Estudei nove anos pra virar anestesista pra descobrir que bastam algumas almofadas e um pouco de Adhitthana pra me mostrar o quão pouco eu entendo de dor e das suas relações com a mente. Conheci pessoas fantásticas dos quatro cantos do Brasil e do mundo, Rio, Sampa, Brasília, Chapada dos Veadeiros, Curitiba, Rio Grande do Sul, Alemanha, Espanha, Inglaterra, EUA, Itália, Paraguai, até da Argentina veio gente legal, veja só vc o poder do Vipassana. Aprendi que se pode ganhar um irmão em 10 dias e sem falar nada (olha a equanimidade, Paulo!). Aprendi que ainda tem muita gente boa nesse mundo, gente com coração, gente realmente livre pra amar o mundo todo. Recuperei a confiança na raça humana. Mudei meus conceitos sobre religião e espiritualidade. Aprendi a ser mais disciplinado, a comer melhor, a dormir melhor, a respirar melhor, a trabalhar melhor, a me relacionar melhor, a viver melhor, a amar mais e melhor. Foi a experiência mais transformadora da minha vida.

Bhavatu sabba mangalam.

Vipassana 4 - Inferno

Um parágrafo especial para a comida. Como eu já falei, comida absolutamente natural e sem glutonarias. Talvez fosse essa a parte que mais em preocupada no curso, já que meus amigos me deram a singela alcunha de “A Draga”. Sim, comi pouco. Mas foi por opção e absoluta falta de necessidade de comer mais, fiquei mais econômico, digamos assim. A comida é absolutamente simples, quase rústica. Simples mesmo. E não é um simples risotto de arroz arbóreo com parmesão faixa azul, paprika, funghi porcini e aneto. Mas fui brindado com deliciosas surpresas como uma calda de passas, ameixa e canela pra colocar por cima do iogurte e do mingau de aveia servidos de manhã, ou um escondidinho de inhame com proteína de soja servido um dia no almoço. Deliciosos! No café e lanche sempre tinha frutas, no almoço sempre tinha salada, posso dizer que comi muito bem.


Na noite do Dia 4 fomos finalmente introduzidos à técnica de Vipassana. Basicamente consiste em observar objetivamente quaisquer sensações corporais, sem identificar-se com as mesmas, sem gerar formações mentais (sankharas) de aversão às sensações ruins nem de cobiça pelas sensações boas (é preferível usar os termos “sensações grosseiras e sensações sutis”), mantendo a equanimidade da mente. Isso supondo que dali em diante, progredindo na técnica, vc fosse capaz de sair dos 100% de sensações grosseiras que minavam a resistência minuto a minuto e começasse a sentir tb coisas sutis. Foram introduzidas tb as sessões de Adhitthana, ou Sessões de Forte Determinação: três vezes por dia, nas sessões de meditação em grupo, vc deve ficar por uma hora completa mantendo a mesma postura, sem mexer os pés, as mãos ou a cabeça. Até aqui as dores físicas tinham sido pavorosas, a partir daqui virou um inferno. E não só isso; apesar do corpo em frangalhos até aqui a mente estava ficando mais aguçada. A partir do 4º dia eu despenquei em queda livre, morri 10 vezes todo dia, tudo doía. Não só o corpo estava destroçado, a mente tb estava começando a dar sinais de falência. Comecei a ter lembranças do passado e do presente, sonhos em 3ª pessoa, o sensório completamente perturbado, sentindo cheiros, gostos e sons que obviamente não estavam ali, todos os pernilongos do retiro pareciam ter gostado do sabor do meu sangue e eu não podia matar nenhum, ou tava chovendo pra cacete ou tava abafado pra cacete, a voz grave em inglês com sotaque indiano do Goenka me irritava profundamente, a voz com sotaque pãulistããã da mulher que depois fazia a tradução em português e parecia que estava falando com crianças de 6 anos me levava às raias da fúria. Todas as minhas articulações crepitavam ao menor movimento, meu estômago e intestino já tinham trocado de lugar várias vezes, eu andava mancando um pouco do pé direito que já tinha a impressão em baixo-relevo da almofada onde ele se apoiava, uma dor latejante na musculatura lombar acompanhava cada passo, o pescoço ardia, eu me sentia num campo de concentração submetido a torturas nazistas, suplícios japoneses, os epiléticos sendo queimados na fogueira na época da Inquisição, os sacrifícios humanos dos incas, imagens grotescas de todos os filmes que eu já tinha visto desde Hellraiser (1 & 2) até a cena em que o condenado é queimado vivo na cadeira elétrica no filme The Green Mile, com o Tom Hanks. As mudanças de posição eram cada vez mais frequentes, o alívio era cada vez mais fugaz, era como um viciado precisando de doses cada vez maiores de droga a intervalos cada vez menores. Comecei a pensar em todas as drogas analgésicas que eu, anestesista, conheço tão bem, quase completei mentalmente o projeto de uma máquina para auto-indução de anestesia, involuntariamente eu ficava repetindo “morfina, morfina, morfina”, lembrei de todos os pacientes nos quais eu subvalorizei sintomas de dor. A essa altura já tinha passado o 5º, o 6º, o 7º, o 8º dia, eu ainda não tinha conseguido fazer nenhuma Adhitthana completa e estava profundamente frustrado com isso, gerando sankharas e mais sankharas de aversão. Daqui a pouco o curso acaba, eu pensei, e não vou conseguir chegar a lugar algum, é sensação grosseira em cima de sensação grosseira, preciso me esforçar mais mas não consigo. Frustração. Frustração. Frustração. Se eu não tivesse operado minha miopia seria mais um par de óculos pro cemitério.

Vipassana 3 - Grandes esperanças

Dia Um, 4h da madrugada, toca o sino chamando para o início. Pelo menos não era o bip-bip do despertador, lembrava mais um gonzo daqueles de filme chinês trash de artes marciais, já tava me sentindo o próprio mestre shaolin. Iááááá!!! No caminho pro banheiro topei com três sapinhos engraçadinhos e um batráquio que parecia tb um sapo mas tinha o tamanho de um pequinês, do qual eu respeitosamente desviei. Algumas aranhas ameaçadoras nos cantos das paredes, mariposas, formigas de toda sorte, outros insetos variados, aquele cheiro de grama molhada, calça dobrada nas canelas, chinelo de dedo nos pés, meu lado Chico Bento aflorando e eu comecei a achar ótimo tudo aquilo. Lógico que nem tudo são flores. Difícil concentrar-se pra aquela gostosa e libertadora mijada matinal com um pernilongo de 12 cm dando rasantes ameaçadores sobre os Países Baixos. Quer saber? Eu tô achando é pouco. Além do mais, pra curar o sono da madrugada nada melhor que uma ducha gelada. No meio caminho da água entre o chuveiro e minha cabeça eu lembrei que ali era Miguel Pereira, água de serra, congelante, arrependi-me mas aí já era tarde demais. Banho rápido, escovada nos dentes, parti pra sala de meditação, animado, quem sabe no final do dia eu já esteja levitando ou conversando com os animais. E aí começou a dura realidade.

Tinha minhas 2 almofadinhas, peguei mais umas 3 e achei que já tava bom demais. Arrumei do jeito que melhor consegui e sentei com as pernas cruzadas normalmente na frente. Vamos com calma, lá pelo meio do curso eu já devo estar meditando naquela postura de lótus das estátuas de Buda ou quem sabe de ponta cabeça com o dedão do pé esquerdo cruzando pela frente da axila direita. Sentei e fiquei praticando anapana durante umas duas horas até não sentir mais nada abaixo do joelho esquerdo, uma queimação intensa em toda a perna direita, a bunda pegando fogo, a coluna lombar completamente destroçada, os ombros sem posição e a nuca com um torcicolo incipiente. Achei que pra primeira sessão já tava bom demais e resolvi lavar o rosto no banheiro do alojamento. Na parede do banheiro tinha um relógio, quando entrei tava marcando 4h40. Olhei de novo. Se eu levantei às 4h, tomei banho e escovei os dentes devem ter passado uns 20min. Quer dizer que essas duas horas meditando foram só uns 15 a 20 minutos? Nesse momento eu lembrei do meu recém-falecido relógio de pulso, olhei pras próximas horas e dias e tive pela primeira vez vontade de ir embora. Mas eu já estava ali, tinha me proposto a fazer o pacote completo, ia ficar morrendo de vergonha de dizer que tinha amarelado e ido embora. Vamos, rapaz, seja homem, volte pra sala. Ao longo das sessões de meditação desses 10 dias eu arrumei minhas 5 almofadinhas de 4.386 maneiras diferentes e tentei outras 3.981 variações de posições corporais, sempre sem sucesso. Era sentar e depois de uns 20 a 30 minutos não aguentava mais e tinha que trocar de posição. Lembrei das centenas de almofadinhas no fundo da sala e resolvi buscar mais umas mas já era tarde, haviam sido todas saqueadas pelos outros alunos, tão desconfortáveis quanto eu. Tinha gente com 8, 9, até 11 almofadas! Descobri que 3 companheiros haviam recuado seus tapetinhos até o fundo da sala pra ficar com as costas apoiadas na parede. Arrastei-me penosamente até o Gregory, fiz minha melhor cara de cachorro pidão, pedi pra ir pro fundo e ele concordou. Lembrei da época da escola, no fundo da sala de aula sempre fica a galera que não quer nada, os baderneiros, pessoal com déficit de atenção, os repetentes. Lembrei do Tropa de Elite: “tá com medinho, senhor zero-um”? Troquei feliz o que restava da minha dignidade pelo último espaço na parede e achei que meus problemas estavam resolvidos. Melhorou quase nada. Quase nada mesmo. Comecei a me desesperar. E assim passaram o 1o e o 2o dia, com muito sofrimento mas pelo menos muita concentração. O anapana realmente funcionava, a mente começava a ficar mais focada e afiada e eu pensei que ia sair do retiro paraplégico mas pelo menos muito concentrado. Bola pra frente.

Na noite do Dia 2, após 48 h de “o ar que entra, o ar que sai, assim como entra, assim como sai”, fomos instruídos a prestar atenção nas sensações que sentíamos no triângulo de pele que vai desde a base do lábio superior até a entrada das narinas. Nesse fantástico latifúndio cutâneo de 2cm quadrados, o que vc sente? Sem pressa, vc tem mais 48 h inteirinhas só pra isso. E pra quebrar cada pedacinho de vc que ainda estiver inteiro.

Vipassana 2 - Nu

Depois de uma viagem sem maiores percalços, chegamos. O lugar é bem simples, parei o carro num baixio perto da entrada do local, fora da vista da área do retiro de maneira que não o vi até o dia de voltar. Pronto, a primeira perda material. Cheguei, me apresentei, preenchi um formulário frente e verso perguntando informações básicas e outras como “faça um pequeno resumo da sua vida”. Fiquei com inveja do que Fernanda e Márcia estariam escrevendo mas fiz meu melhor, deixei a chave do carro, carteira, demais documentos e celular num saco plástico lacrado com a organização e assim completou-se a minha despersonalização. Quem sou eu sem minhas posses materiais? Estava praticamente nu, só conservei o relógio de pulso após garantir à organização que ele não apitava nem fazia barulhinhos. Fui descendo o caminho de terra e grama – todos os caminhos dentro do retiro são meio que trilhas no meio da natureza - até o dormitório e notei a imensa quantidade de placas de "Limite" espalhadas pelo local. Nos próximos dias eu descobriria que é bem possível ultrapassar todos limites mesmo estando dentro dos limites. Cheguei ao quarto, conheci meus dois companheiros de moradia pelos próximos 10 dias e aí tive um mau presságio: meu relógio, o último dos links com a vida tal qual eu conhecia, parou. O ponteiro dos segundos ainda estava agonizante em espamos episódicos mas definitivamente ele estava evoluindo para o êxito letal, um triste caso de morte súbita. Pensei: fudeu. O tempo parou e eu estou preso aqui no meio do mato, cercado de pessoas totalmente diferentes de mim, fazendo uma coisa que eu nunca fiz na vida, para toda a eternidade dos próximos 10 dias. Tava me sentindo o personagem daquele filme Feitiço do Tempo que sempre passa na Sessão da Tarde, onde o cara fica preso num lugar onde todo dia é o mesmo dia. Troquei rápidas palavras de apresentação com meus colegas, um jornalista e um professor de educação física, e já subimos para a reunião inicial no refeitório, a última ocasião em que homens e mulheres sentaram todos juntos.


As instruções básicas foram dadas e começou o Nobre Silêncio. Assim mesmo, com letras maiúsculas. Nenhuma palavra deveria ser trocada entre os participantes. Para imprevistos absolutamente inadiáveis tínhamos o Gregory, o gerente masculino, com quem deveríamos falar apenas o imprescindível. E assim tudo começou. O programa básico era o seguinte:


04:00-- ---------------- Chamada

04:30-06:30 ----------- Meditação na sala ou no quarto

06:30-08:00 ----------- Desjejum e descanso

08:00-09:00 ----------- Meditação em grupo na sala

09:00-11:00 ----------- Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor

11:00-12:00 ----------- Almoço

12:00-13:00 ----------- Descanso e perguntas individuais com o professor

13:00-14:30 ----------- Meditação na sala ou no quarto

14:30-15:30 ----------- Meditação em grupo na sala

15:30-17:00 ----------- Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor

17:00-18:00 ----------- Lanche e descanso

18:00-19:00 ----------- Meditação em grupo na sala

19:00-20:15 ----------- Palestra do professor na sala

20:15-21:00 ----------- Meditação em grupo na sala

21:00-21:30 ----------- Perguntas abertas na sala

21:30 ------------------ Repouso. Apagam-se as luzes


Logo após as instruções iniciais já descemos pra sala de meditação pra primeira sessão do curso. A sala é um galpão de uns 10x20 metros, com um madeiramento lindo sustentando o telhado, paredes de tijolinhos, chão de tacos limpos com esmero cirúrgico, uma divisória entre os lados dos homens e das mulheres que obviamente usavam entradas separadas, bem arejada, paredes em todas as janelas, pouquíssima luz artificial, uns 25 tapetinhos de 0,60x1,20m de cada lado da sala, um pra cada aluno (ado, ado, ado, cada um no seu quadrado), e umas 80 almofadas de toda sorte, tamanho, fofura e cor, espalhadas no fundo da sala. Pô, mas eles não mandaram trazer almofadas? Pra que isso tudo? Que exagero, pensei. Nesse momento eu ainda não sabia como seriam poucas aquelas almofadas...

Ainda na noite do Dia Zero foi dada a primeira das orientações técnicas e filosóficas da meditação, que são sempre dadas em áudio pelo próprio S. N. Goenka, na sessão em grupo das 19h às 20h15. A técnica que aprendemos nessa sessão do Dia Zero foi o anapana, que é simplesmente observar a respiração, sem interferir, concentrando-se no ar que entra e no ar que sai. Minuto após minuto, hora após hora. O ar que entra, o ar que sai. Da maneira que entra, da maneira que sai. Sendo o mestre indiano, o inglês tb tem aquele indefectível sotaque que eu acho engraçadíssimo, o W com som de V, o R bem puxado, etc. No começo tive que me controlar pra não rir, no 2o dia já tinha que me controlar pra não ficar puto. Ô, mente reativa!

Vipassana 1 - Princípio

(Resolvi publicar em partes porque metade dos meus dois leitores reclamou que tava extenso demais.)

Como alguns já sabem, passei os últimos 10 dias de janeiro num retiro Vipassana perto de Miguel Pereira chamado Dhamma Santi. Desde já, posso dizer que foi uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Não vou me estender em maiores explicações sobre a técnica ou a filosofia pq sou noviço no assunto e corro o sério risco de falar besteira. O site do curso é esse aqui e na internet ou em boas livrarias vc deve encontrar mais material sobre o assunto, mãos à obra.


Basicamente e em linhas sucintíssimas, o esquema é o seguinte: vc passa 10 dias em reclusão monástica, silêncio e isolamento absolutos, sem falar, comendo quantidades parcimoniosas de comida absolutamente natural, meditando 10 horas por dia, com segregação absoluta entre homens e mulheres, abstendo-se de entorpecentes, abstendo-se de qualquer atividade sexual, sem mentir, sem roubar, sem matar absolutamente nenhum ser vivo, sem nenhum meio de contato com o mundo exterior, vivendo de caridade, como um monge. Mas porquê, Daniel, porquê esse suplício auto-infligido? Digamos que desde que eu me entendo por gente tenho uma certa curiosidade e admiração pelas filosofias orientais, por aquela paz toda. Entendam, eu sempre lidei extremamente mal com frustrações. Quebrei várias vezes meus próprios óculos em acessos de fúria. Tudo bem que eram aqueles modelos horríveis, redondos, fundo-de-garrafa, 5 graus de miopia e mais astigmatismo, com aquela haste de molinha atrás da orelha pra não cair, mas que criança quebra o próprio instrumento que a ajuda a ver? Mais de trinta anos desse comportamento patológico causam estragos na psique de qualquer um, vide as carinhosas alcunhas de Abominável, Alemão Neurótico, Tolerância Zero, etc. Tem gente que não tem problemas, beleza; eu faço parte dos outros 100% que se debate com certas questões. Aliado a isso, estava já há uns 2 ou 3 anos numa fase de intensos questionamentos quanto à minha própria noção de espiritualidade. Tenho pouco senso de autopreservação ou talvez seja um espírito algo aventureiro: acampamentos, caminhadas longas, bivaques, viagens pra Angola, sempre curti essas coisas.. Pra completar, estava num entre-ciclos profissional, numa fase de certa independência. Soube do retiro por uma amiga, uma coisa levou a outra e resolvi ir.


O lugar é perto, na estrada que vai de Miguel Pereira a Vassouras, não chega a 150km. Não é difícil chegar: vindo do Rio, pegue a Via Dutra e saia no km 205, em direção a Japeri. Siga as placas em direção a Miguel Pereira, subindo uma serrinha muito gostosa com um visual fantástico e, chegando a Miguel Pereira, bem na entrada da cidade há uma espécie de portal de boas-vindas, com a estrada passando por baixo. Logo depois desse portal há as placas indicando Vassouras, à esquerda. Siga em direção a Vassouras por mais 11,7km até chegar a uma ponte com grades verdes, saia do asfalto e vire à esquerda na estradinha de terra. Siga por mais uns 800m até chegar a um asilo do governo do estado, o Hotel da Melhor Idade (lindo esse nome). Ali vc vira à direita e segue mais 2,5km até chegar ao Dhamma Santi. Essas distâncias eu anotei no caminho de volta pra facilitar aos próximos navegantes, o mapinha que tem no site não é dos melhores e eu, hiper-precavido e neurótico como sempre, tava preocupado em chegar sem erros.

A primeira questão surgiu na ida: ofereço carona ou não? Melhor não, pensei, vai vir um monte de bicho-grilo comigo, pessoal alternativo demais, falando o tempo inteiro de portais energéticos, xamãs, planalto central e sabe-se lá mais o que. Tô indo pro retiro, ficar em silêncio e isolamento, melhor já ir treinando no caminho. O que é isso, Daniel?! manifestou-se a metade boa da minha consciência esquizofrênica, vc tá indo participar de uma experiência nova, aprender, dividir, transformar-se, evoluir espiritualmente, já vai começar nessa mesquinharia? Resolvi colocar meu nome no mural de caronas e seja lá o que Buda, Brahma, Shiva ou a divindade dominante no retiro quiser. Recebi um email da Fernanda com um endereço tipo nandalua@qualquercoisa. Pensei, pronto! Bicho-grilo na certa, essa coisa de lua, dos astros, etc e tal. Mas agora é tarde. E a Fernanda ainda perguntou se havia mais uma vaga para uma amiga, a Márcia, que já tinha ido uma vez e conhecia o caminho. Viu, Daniel? Buda já está te recompensando pelo altruísmo e desprendimento, pelo menos ela conhece o caminho e vc pode viajar mais tranquilo. Relaxa. Fecha a boca, abre a cabeça e segue com fé. E assim fui buscar minhas companheiras de viagem. Parei o carro em frente ao endereço que tinha recebido e conheci Fernanda e Márcia, dois doces em forma de gente. Fernanda é novinha, rosto sonhador, música e artesã, faz instrumentos de madeira e bambu e corre o Brasil, livre, leve e solta. Márcia é um pouquinho mais velha que eu, um olhar doce mas penetrante, voz firme, advogada de formação, trabalhou em multinacional, morou no Canadá, encheu-se de tudo e virou massoterapeuta, reflexologista, aplica Reiki e massagem ayurvedica, faz shiatsu e argiloterapia e ainda é tecelã. E eu tão convencional, médico, um preconceituoso pequeno-burguês dono da verdade, ignorante de tudo que não é judaico-cristão ou material, me sentindo um merda na viagem enquanto elas falavam de maravilhosas caminhadas na serra do Pati, da energia da chapada diamantina, de ecofazendas sustentáveis, de viagens fantásticas, de espírito e de liberdade. Tinha começado minha transformação.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Lugares onde NÃO morar

Fui ver "O dia em que a Terra parou" e concluí duas coisas: 1)o papel do alienígena inexpressivo não poderia ser melhor interpretado por ninguém a não ser o Keanu Reeves e 2)NYC é um péssimo lugar pra se morar. Tudo bem, a Grande Maçã tem o seu charme, tem o MoMA, tem o Central Park, tem jazz no metrô, tem mais cara de Woody Allen que de George Bush, tem o edifício Chrysler, tem Sinatra cantando "New York", tem quatro Starbucks em cada esquina e mais 123 razões mas cacêta! ô lugarzinho azarento, parece ter um tropismo intenso para desgraças. Tudo acontece lá, segundo Hollywood: hecatombes nucleares, desastres naturais, quedas de asteróides, um vírus mortal qualquer, invasões zumbis, aparições alienígenas. Até os terroristas preferem NYC. Só ataques de monstros pré-históricos não acontecem por lá, vão todos pra Tóquio, tipo o Godzilla. Aliás, cada cidade é especialista nalgum tipo específico de catástrofe. O Rio é craque em desastres eleitorais.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Iniciativa

O primeiro post tem que ter esse título.