(Resolvi publicar em partes porque metade dos meus dois leitores reclamou que tava extenso demais.)
Como alguns já sabem, passei os últimos 10 dias de janeiro num retiro
Vipassana perto de Miguel Pereira chamado
Dhamma Santi. Desde já, posso dizer que foi uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Não vou me estender em maiores explicações sobre a técnica ou a filosofia pq sou noviço no assunto e corro o sério risco de falar besteira. O site do curso é
esse aqui e na internet ou em boas livrarias vc deve encontrar mais material sobre o assunto, mãos à obra.
Basicamente e em linhas sucintíssimas, o esquema é o seguinte: vc passa 10 dias em reclusão monástica, silêncio e isolamento absolutos, sem falar, comendo quantidades parcimoniosas de comida absolutamente natural, meditando 10 horas por dia, com segregação absoluta entre homens e mulheres, abstendo-se de entorpecentes, abstendo-se de qualquer atividade sexual, sem mentir, sem roubar, sem matar absolutamente nenhum ser vivo, sem nenhum meio de contato com o mundo exterior, vivendo de caridade, como um monge. Mas porquê, Daniel, porquê esse suplício auto-infligido? Digamos que desde que eu me entendo por gente tenho uma certa curiosidade e admiração pelas filosofias orientais, por aquela paz toda. Entendam, eu sempre lidei extremamente mal com frustrações. Quebrei várias vezes meus próprios óculos em acessos de fúria. Tudo bem que eram aqueles modelos horríveis, redondos, fundo-de-garrafa, 5 graus de miopia e mais astigmatismo, com aquela haste de molinha atrás da orelha pra não cair, mas que criança quebra o próprio instrumento que a ajuda a ver? Mais de trinta anos desse comportamento patológico causam estragos na psique de qualquer um, vide as carinhosas alcunhas de Abominável, Alemão Neurótico, Tolerância Zero, etc. Tem gente que não tem problemas, beleza; eu faço parte dos outros 100% que se debate com certas questões. Aliado a isso, estava já há uns 2 ou 3 anos numa fase de intensos questionamentos quanto à minha própria noção de espiritualidade. Tenho pouco senso de autopreservação ou talvez seja um espírito algo aventureiro: acampamentos, caminhadas longas, bivaques, viagens pra Angola, sempre curti essas coisas.. Pra completar, estava num entre-ciclos profissional, numa fase de certa independência. Soube do retiro por uma amiga, uma coisa levou a outra e resolvi ir.
O lugar é perto, na estrada que vai de Miguel Pereira a Vassouras, não chega a 150km. Não é difícil chegar: vindo do Rio, pegue a Via Dutra e saia no km 205, em direção a Japeri. Siga as placas em direção a Miguel Pereira, subindo uma serrinha muito gostosa com um visual fantástico e, chegando a Miguel Pereira, bem na entrada da cidade há uma espécie de portal de boas-vindas, com a estrada passando por baixo. Logo depois desse portal há as placas indicando Vassouras, à esquerda. Siga em direção a Vassouras por mais 11,7km até chegar a uma ponte com grades verdes, saia do asfalto e vire à esquerda na estradinha de terra. Siga por mais uns 800m até chegar a um asilo do governo do estado, o Hotel da Melhor Idade (lindo esse nome). Ali vc vira à direita e segue mais 2,5km até chegar ao Dhamma Santi. Essas distâncias eu anotei no caminho de volta pra facilitar aos próximos navegantes, o mapinha que tem no site não é dos melhores e eu, hiper-precavido e neurótico como sempre, tava preocupado em chegar sem erros.
A primeira questão surgiu na ida: ofereço carona ou não? Melhor não, pensei, vai vir um monte de bicho-grilo comigo, pessoal alternativo demais, falando o tempo inteiro de portais energéticos, xamãs, planalto central e sabe-se lá mais o que. Tô indo pro retiro, ficar em silêncio e isolamento, melhor já ir treinando no caminho. O que é isso, Daniel?! manifestou-se a metade boa da minha consciência esquizofrênica, vc tá indo participar de uma experiência nova, aprender, dividir, transformar-se, evoluir espiritualmente, já vai começar nessa mesquinharia? Resolvi colocar meu nome no mural de caronas e seja lá o que Buda, Brahma, Shiva ou a divindade dominante no retiro quiser. Recebi um email da Fernanda com um endereço tipo nandalua@qualquercoisa. Pensei, pronto! Bicho-grilo na certa, essa coisa de lua, dos astros, etc e tal. Mas agora é tarde. E a Fernanda ainda perguntou se havia mais uma vaga para uma amiga, a Márcia, que já tinha ido uma vez e conhecia o caminho. Viu, Daniel? Buda já está te recompensando pelo altruísmo e desprendimento, pelo menos ela conhece o caminho e vc pode viajar mais tranquilo. Relaxa. Fecha a boca, abre a cabeça e segue com fé. E assim fui buscar minhas companheiras de viagem. Parei o carro em frente ao endereço que tinha recebido e conheci Fernanda e Márcia, dois doces em forma de gente. Fernanda é novinha, rosto sonhador, música e artesã, faz instrumentos de madeira e bambu e corre o Brasil, livre, leve e solta. Márcia é um pouquinho mais velha que eu, um olhar doce mas penetrante, voz firme, advogada de formação, trabalhou em multinacional, morou no Canadá, encheu-se de tudo e virou massoterapeuta, reflexologista, aplica Reiki e massagem ayurvedica, faz shiatsu e argiloterapia e ainda é tecelã. E eu tão convencional, médico, um preconceituoso pequeno-burguês dono da verdade, ignorante de tudo que não é judaico-cristão ou material, me sentindo um merda na viagem enquanto elas falavam de maravilhosas caminhadas na serra do Pati, da energia da chapada diamantina, de ecofazendas sustentáveis, de viagens fantásticas, de espírito e de liberdade. Tinha começado minha transformação.